Oração para Desaparecer, Socorro Acioli (2023)
Quem é você?
No mês de maio o livro escolhido foi Oração para Desaparecer de Socorro Acioli (será que ela é parente da Maria de Fátima?).
Esse texto tem spoilers, então tome cuidado.
As meninas queriam ler algo mais leve, após terminarmos a tetralogia napolitana, o que é totalmente entendível. Então escolhemos este, que é um livro sobre amor e fé, envolto no realismo mágico, algo que a autora sabe escrever muito bem como vimos em seu livro “Cabeça do Santo”.
É um livro bem curtinho, o que acho que pode ter sido um problema, pois senti que os personagens foram pouco ou mal desenvolvidos. No entanto, mesmo sendo curto, tive problemas também para pegar no tranco, a primeira metade do livro pode ser pouco fluída, ficamos presos no mesmo ponto onde a personagem principal (Aparecida) não descobre nada de novo.
A história por trás dessa trama é realmente muito interessante, Aparecida acorda debaixo da terra, sem se lembrar como foi parar ali. O que descobrimos é que ela morreu, e volta à vida em um outro continente. Ela não se lembra nem ao menos o seu nome.
Com isso a história segue, misturando religião, fé, amor, vida e morte. As reflexões que o livro se propõe a fazer, principalmente sobre a morte, foram rasas. Mas é interessante quando a reflexão é sobre a questão da identidade.
Quem é você? Quem somos nós? Quem somos nós senão pensarmos de onde viemos, onde nascemos, com quem vivemos? O lugar de onde nascemos é fundamental para compor nossa identidade.
“- A minha maior pergunta é: o que é ser brasileira?... Entender o país no sangue me trará as respostas, tenho esse sentimento.”
“ — Era um disco do Milton Nascimento chamado Geraes. Capa cor de areia, uma montanha desenhada em tinta prata. Choro sempre que escuto. Tenho saudades do Brasil, mesmo sem recordar. Ser brasileira é uma verdade que não conheço na mente, mas percebo no coração e me sinto parte.”
Nossa identidade é uma construção, o local, as relações, tudo isso influencia e contribui também para acharmos significados para a nossa existência. Em diversos momentos a personagem busca esse significado para ter voltado a vida. Já é difícil ter algum sentido na vida sabendo quem se é, imagina sem saber. Nesse momento, ela se vê tão apaixonada por Jorge, que seu desejo é não mais lembrar de seu passado, para que nada ameace esse amor que ela agora vive. O Jorge é um chato, mas se a Cida o ama…
“De tanto encher meu coração com beleza, esqueci de sofrer.”
Aqui na história, amor é um ponto central. Cida e Jorge, Joana e Miguel. Quando Miguel conta sua história, o livro fica bem mais interessante. O quão destrutivo pode ser amar alguém de forma tão intensa? Podemos entrar em um debate aqui sobre a existência do “amor da vida”, se estamos destinados a determinada pessoa. Aqui na história isso é mostrado tanto com Miguel, quanto quando Cida conta sobre seus sonhos.
Na história de amor de Miguel, percebemos que esse amor destinado não foi nada saudável, ele passa praticamente toda sua vida em sofrimento (terapia, Miguel), “esperando” seu retorno, que independente do tempo que ficaram juntos, foi o amor da sua vida.
“O primeiro pensamento do dia era ela. Hora atrás de hora eu matando aquele rosto, apagando a voz [...] matei a tiro, de fogo, de cachaça, de ódio e todo dia de noite ela aparecia [...] até eu acordar de manhã e matar, matar, matar Joana, dona da minha desgraça.”
Ainda sobre amor, temos o relacionamento de mãe e filha, que sobrevive através de continentes e do tempo. Temos o amor de uma comunidade que protege um dos seus. Nessa segunda parte acontece de tudo, temos assassinato, ventania, tretas, espiritualidade, e fica uma vontade de conhecer mais sobre tudo ali, é muito mais legal que toda a enrolação da primeira parte do livro. Mesmo assim, tiveram partes que me cansaram, o tema do amor se torna forçado e às vezes um pouco clichê.
“O amor, o fogo mais antigo. A única força que dissolve e recria o tempo.”
O que gosto muito dessa autora, além do realismo mágico, é falar sobre o Brasil. Ela pega fatos históricos e usa como pano de fundo para sua história.
Assim como na Cabeça do Santo, onde ela utiliza da história da construção de uma estátua em homenagem a Santo Antônio no interior do Ceará, aqui ela utiliza o soterramento de uma igreja, em Almofala/CE.
Para contextualizar, essa igreja, assim como ela conta no livro, foi construída pelos portugues em território indígena, pertencente aos Tremembés. Ali ocorre a tomada de uma imagem sacra, e diversos conflitos acontecem. Essa igreja é então soterrada por 45 anos, pelas chamadas dunas móveis (ou então, de fato, pelos Encantados).
A autora utiliza fatos históricos de forma brilhante em suas obras. Nesta, ela traz para a narrativa os povos originários e ressalta a importância de lembrarmos o passado, não apenas o nosso, mas também o do nosso país e dos povos que sempre estiveram aqui.
“Foram os Encantados que cobriram a igreja, por vingança, sim.”
Espero que tenham gostado, até a próxima, beijuu

uma boa resenha 🩷 lemos juntas e apesar de entender seu ponto, eu gostei do livro, acho que de fato a primeira parte poderia ter sido mais curta e prolongar mais sobre a vila dela quando retorna, mas do meio pro final fica muito emocionante e por mim isso já faz valer a pena o livro!!
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