Poeta Chileno, Alejandro Zambra (2020)
por Glória
Se você não sabe, o Chile é o país da poesia. Se lá eles não tem Copa do Mundo de futebol, eles tem a Copa do Mundo da poesia, com dois títulos do Nobel da Literatura. Gabriela Mistral, em 1945, sendo a primeira pessoa latino americana a ganhar esse prêmio, e Pablo Neruda, em 1971.
Isso que eu falei no parágrafo acima, aprendi lendo Poeta Chileno, primeiro romance de Alejandro Zambra, que é também um autor de poesias.
Além de aprender muito sobre poesia, poesia chilena, e sobre o Chile em si, esse livro me fez sentir, sentir afeto, ternura, graça. Pra mim, sentir, é essencial. A arte precisa ser sentida, senão perde seu propósito.
Aqui, Zambra traz pro romance a delicadeza da poesia, e através de sua sensibilidade, ele descreve relações complexas entre pai/padrasto e filho/enteado e acontecimentos mundanos.
A representação da paternidade, para além do afeto e cuidados, me marcaram também pelo compartilhamento de interesses, aqui na história passa-se o gosto pela poesia e o desejo de se tornar poeta (de forma não forçada, claro). Um fator que me fez gostar ainda mais dessa história, pois tive um pai muito presente que me ensinou muitas coisas, das quais me formaram como sou hoje. Ele já não está mais nesse plano, em novembro fará 10 anos da sua partida.
Mas vamos para a história.
Gonzalo é um garoto que ama poesia, ele venera os poetas por eles terem a sabedoria das palavras do amor, e a sensibilidade em descrever a vida. Seu sonho é se tornar um poeta bom e de prestígio. Ele se apaixona pela jovem Carla, eles tem um relacionamento de adolescência, com as descobertas sobre paixão e sexo. Eles se separam, e após anos, se reencontram inesperadamente numa noite em Santiago, e recomeçam um novo romance. Porém, Carla agora tem um filho de 6 anos. E Gonzalo se vê de repente como um padrasto.
“Fracassar seria, pra ele, acordar de repente em meio a uma vida insossa, condenado à prisão perpétua de um trabalho miserável.”
Um resumo bem simples sobre o que é essa história. Na verdade isso seria só o início. Por que a partir daí nós vamos acompanhar de forma deliciosa os complexos relacionamentos entres esses personagens.
O livro se divide em quatro partes, primeiro acompanhamos Gonzalo, depois Vicente. Na terceira parte surge uma nova personagem, a Pru, e na quarta retornamos com foco nos dois personagens iniciais.
Há controvérsias sobre Gonzalo ser ou não uma boa pessoa, e de fato, ele é um homem hétero né, gente? O narrador também, e é por isso que ele passa pano pro Gonzalo. Sabendo disso, podemos seguir pensando que ele vai fazer e pensar muita coisa que um homem hétero faria e pensaria. Sem precisar endeusar o personagem apenas por ele fazer o mínimo, podemos curtir a história pela história.

“Enfim podemos nos demorar: enfim podemos duvidar, aprofundar, rir das nossas feridas, curá-las. Nós, repetentes, avançamos num ritmo próprio, dispostos a perder, a nos desviar. Sem medo. Sem medo do medo.”
“[...] a dilacerante linguagem de rejeição amorosa é universal.”
Eu diria que o narrador é um personagem à parte, ele participa da história dando opiniões, às vezes sutis e às vezes bem explícitas. É engraçado, tem um senso de humor que pra mim funciona muito. Tira sarro dos poemas ruins que o Gonzalo escreve, e pode tirar duas a três páginas para explicar uma regra de três, ou pra que serve um funcionário do caixa de uma livraria.
Eu amei acompanhar Gonzalo e Vicente, e realmente não queria que o livro acabasse. Já os drama da Pru não me foram muito cativantes não, mas suas entrevistas com os poetas foram muito interessantes, principalmente quando ela vai até a casa de Parra. Mais tarde escutando um podcast, descobri que isso realmente aconteceu, porém com uma jornalista brasileira, que inclusive lançou o livro traduzido de Parra no Brasil.
Livro dela: Só para maiores de cem anos: antologia (anti)poética (2018) - Nicanor Parra (Autor), Joana Barossi (Tradutor), Cide Piquet (Tradutor)
E o podcast que escutei contando essa história: Livros no Centro - O país dos poetas
Esse livro é tão cheio de referências que eu acabei comprando o livro “Ternura” da Gabriela, foi dificílimo de achar na sua língua original com um preço acessível, comprei na estante virtual caindo aos pedaços.
Esse livro fez renascer meu carinho pela poesia. Me deu vontade de voltar a ler e escrever poesia. Muitas vezes lendo as poesias contidas no livro eu tive dificuldade de entender, talvez precise de prática. Me lembro de estar apaixonada e escrever vários poemas para minha ex namorada. Quando a gente ama a vida ganha uma graça, uma beleza, que muitas vezes é difícil de enxergar.
Porém, a beleza está sempre aqui.
E a poesia também é linda na tristeza. assim já dizia Vinícius de Moraes, "pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza".
Então deixo aqui meu poema que fiz pro meu pai (provavelmente o Zambra falaria que é bem ruim, mas isso nem sempre é importante, rs).
Aloisio,
Mão quente, macia, acolhedora
Sem materialismo, ambição e ostentação
Natureza, suas belezas, um amor
Me ensinou
Respeito, carinho, bondade
Fazer e dar, compartilhar
Com qualquer que fosse
Estar junto, estar
Estava
Não estava
Está
Perdeu-se
Tarde demais
Destino talvez
Não sei
Fumo de corda, seu cheiro, me lembra
Choro
Beijo, sinto sua barba
Seu estilo
Terno com all star vermelho
Touca
Cachecol nas orelhas
Uma figura
Um Leão
Um da Costa também
Homem livre
Homem, grande
Homem
Eterno
Aloísio, pai.
Até a próxima, beiju



eu amei sua poesia, amiga 🩷 um dia ainda vou ler esse livro por sua recomendação!
ResponderExcluirque lindo poema, Glória. me arrepiei no decorrer.
ResponderExcluiramei.
muito obrigado por compartilhar.
te amo 🤍
Obrigado por compartilhar sua história, Glória. Que a poesia volte com mais força em sua vida. Sempre que possível compartilhe.
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