A Escritora Genial
por Rafaela B.
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| Minha pequena carta de amor à essa italiana. |
Há alguns anos, tive minha primeira experiência com Elena Ferrante. Foi em maio de 2021, em um clube de leitura online, o livro Dias de Abandono. Quando eu estava lendo, senti um grande desconforto com as palavras dela. Era tudo muito cru. A mulher do livro “era maluca”. Confesso que tive dificuldade em acompanhar o raciocínio da protagonista, onde ela caía sem fim dentro de si mesma. Em plena pandemia, já estávamos sofrendo e o que aquela mulher me dizia no livro, me fazia sofrer ainda mais. Apesar de ter entendido que a experiência foi interessante, mesmo com dificuldade, não peguei outro livro da autora para ler. Sentimentos mistos. Mas já percebi o quão intensa eram as histórias da Ferrante.
Um ano depois, li A Filha Perdida, e os mesmos sentimentos retornaram. Eu sempre gostei de ler histórias sobre o cotidiano, com tramas e reflexões que cabem dentro da casa, da cidade. Pude notar que conseguiria encontrar isso nos livros dela. Apesar de achar até meio assustador, eu amei. E eu iria querer ler mais. Toda a magia e mistério que envolve seu nome, faz nós leitores dedicarmos tempo e pesquisa para conhecê-la. E foi com A Amiga Genial e seus quatros livros da tetralogia napolitana, que entendi Elena como minha autora favorita.
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| Eleito o melhor livro do século, ok? (Pela NY Times) |
A tetralogia foi lida em companhia das duas queridas amigas desse clube. Os livros eram grandes, densos, com muita história de Nápoles, tensões políticas, mas também, o que eu mais gostava estava lá: o cotidiano das mulheres. Observá-las em seu crescimento. Pra mim, ler o desenvolvimento de Lenu e Lila foi extraordinário, acompanhado dos mais diversos sentimentos (e confesso que o que se destacou, foi raiva!). De fato, passei muita raiva e frustração vendo atitudes das garotas onde eu pensava: “Como é que elas fazem isso? Como são burras! Como são egoístas!” Enfim, enchia a dupla e as mulheres da história de sentimentos e adjetivos negativos. Só mais pros dois últimos livros que fui percebendo a verdade. A autora simplesmente coloca TODOS os sentimentos que nós, mulheres, sentimos na vida. Não apenas os que fingimos ter, os que mostramos, mas também o mais íntimo de nós, o que escondemos, o nosso âmago, nossos pensamentos intrusivos, aqueles em que não queríamos sentir e não queríamos que ninguém descobrisse que sentíamos. Estava tudo lá. Escrito exatamente como é sentido. Tanto é, que relembrei relacionamentos passados, onde eu agi muito parecido com as meninas, e agora lendo como pessoa observadora, estava apontando o dedo e julgando. Só com o tempo as coisas se encaixam e você percebe que ela não tem medo de expor o que é ser mulher, ser humano, ser uma pessoa imperfeita, e não idealizada.
Nos primeiros livros, eu sempre pensei: Elena deve ter tido algum problema com sua mãe, pois todas as mães nos livros não gostam dos filhos! Agora, com minha nova lente, eu vejo: ela só descreve com clareza o que uma mãe pode sentir, a maternidade real e sem filtros. E que sentir isso não muda o fato de que as mães também podem amar os filhos enquanto sentem coisas ruins sobre eles. Ou também, mães podem se arrepender de serem mães, e viram sua vida escorrer pelos seus dedos enquanto cuidavam de suas crianças. Isso também é real. Mas não é qualquer pessoa que escreve sobre isso com maestria. É ela quem consegue.
Poderia me alongar muito sobre toda a complexidade de cada obra que eu li dela, mas em resumo, a quem se pergunta sobre o que fala Elena Ferrante: Ela fala sobre eu e você. E no começo, pode ser que você não goste de se olhar no espelho que ela cria. Mas depois, você percebe, tudo o que você esconde, ela mostra. E tudo que você sente, ela entende. Ela também já sentiu. E ela vai colocar em seus livros da forma mais crua e encantadora possível. Leiam a escritora genial!



essa autora é genial mesmo, vc descreveu muito bem os sentimentos ao ler as obras dela, ameiii
ResponderExcluirmas discordo num ponto, eu acho que ela tem mommy issues sim kkkk